Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta formam uma dupla do 'telecoteco' na cena graciosa do show 'Bicudos dois'

  • 01/04/2026
(Foto: Reprodução)
Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta apresentam o show 'Bicudos dois' no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro (RJ) Rodrigo Goffredo ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: Bicudos dois Artistas: Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta Data e local: 31 de março de 2026 no Teatro Ipanema (Rio de Janeiro, RJ) Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2 ♬ Um dos grandes álbuns de 2025, injustamente ausente das indicações do 33º Prêmio da Música Brasileira, “Bicudos dois” foi lançado em dezembro e gerou show extremamente gracioso em que Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta se confirmam uma dupla do balacobaco ou, para ser mais exato, uma dupla do telecoteco. No dicionário do samba, telecoteco é a levada malemolente do tamborim. É o balanço, o molejo, que também pode estar na voz, como no caso desses dois cantores que, tanto no show como no disco, evocam duplas do passado, como a formada no início dos anos 1930 por Francisco Alves (1898 – 1952) e Mário Reis (1907 – 1981), de cujo repertório os bicudos reviveram o samba “É preciso discutir” (Noel Rosa, 1932), uma das pérolas pescadas pelos artistas no baú da música brasileira. Assim como no disco, essas joias raras se afinam no roteiro com músicas recentes que parecem vir de algum lugar do passado, casos de “Santinha” (Chico Adnet e Mario Adnet, 2022), samba moldado para salão de gafieira, e de “Prece do jangadeiro” (Pedro Amorim, 2025), cujo canto em feitio de oração parece mergulhar nas profundezas do cancioneiro marítimo de Dorival Caymmi (1914 – 2008). Em cena, dividindo o palco do Teatro Ipanema com cinco músicos extraordinários, Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta tangenciaram no show “Bicudos dois” a maestria dos arranjos do disco de 2025, sequência do álbum “Dois bicudos” (2004), lançado há 22 anos. Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta se afinam no show 'Bicudos dois' Rodrigo Goffredo O show estreou em 17 de dezembro no Rio de Janeiro (RJ), mesma cidade em que voltou à cena na noite de ontem, 31 de março, dentro da programação do “Terças no Ipanema”, projeto que tem levado público antenado ao Teatro Ipanema pela curadoria de Flávia Souza Lima. Como já ficou evidenciado no canto de “Doralice” (Dorival Caymmi e Antônio Almeida, 1945), samba que abriu roteiro encerrado (no bis) com a verve de outro samba, “O que será de mim” (Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves, 1931), ode ao ócio, o charme do show residiu na harmonização das vozes dos dois bicudos. A bossa do canto de “Doralice”, por exemplo, remeteu à gravação original do samba pelo grupo vocal Anjos do Inferno, inspiração para ninguém menos do que João Gilberto (1931 – 2019). Às vezes cantando em uníssono, como no ágil samba “Seja breve” (Noel Rosa, 1935), revivido com o batuque do chapéu de palha percutido pelo baterista Marcos Thadeu, outras vezes esboçando um duelo, como no samba-choro de breque “Desafio do malandro” (Chico Buarque, 1985), Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta mostraram total entrosamento, inclusive quando tiraram sarro um do outro em papo sobre futebol, assunto da fala introdutória da marcha “Hino do Canto do Rio” (Lamartine Babo, 1950). Por isso mesmo, como são uma dupla em cena, os cantores poderiam ter alinhado os figurinos para dar charme adicional ao show... Com o toque virtuoso dos músicos Marcos Thadeu (bateria e chapéu de palha), Paulino Dias (percussão), Paulo Aragão (violão, arranjos e direção musical), Pedro Aragão (bandolim e violão) e Rui Alvim (clarinete e clarone), os cantores caíram afinados no suingue de músicas como o samba-choro “O que vier eu traço” (Alvaiade e Zé Maria, 1945). Mas nem tudo foi ginga, balanço. A dolência de “Reserva de domínio” (1985) evidenciou a beleza da melodia inspirada do habitual letrista Paulo César Pinheiro, parceiro de Mauro Duarte (1930 – 1989), autor dos versos, neste samba de melancolia reforçada no número pelo choro da cuíca de Paulino Dias. Já a dor de cotovelo do samba “Pergunte aos meus tamancos” (Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves, 1936) foi filtrada pelo telecoteco dos dois bicudos. Entre a verve de “Falso patriota” (Victor Simon e David Raw, 1953) e “Cosme e Damião” (Wilson Baptista e Jorge de Castro, 1955), sambas apresentados nas vozes dos cantores Geraldo Pereira (1918 – 1955) e Jorge Veiga (1910 – 1979), respectivamente, Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta extrapolaram o repertório do álbum “Bicudos dois”, cantando “Foi uma pedra que rolou” (Pedro Caetano, 1940) – música regravada pela dupla no disco original de 2004 “Dois bicudos” – e “Canção para inglês ver” (1931), música herdada do roteiro de “Lamartiníadas” (2005), show feito por Del-Penho e Malta com Pedro Miranda em torno da obra do compositor Lamartine Babo (1904 – 1963), autor desse tema lançado na voz do próprio autor há 95 anos! No todo, o show “Bicudos dois” roçou a perfeição do segundo álbum conjunto dessa dupla do telecoteco. Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta mostram destreza vocal no canto de sambas como 'Seja breve' e 'O que vier eu traço' no show 'Bicudos dois' Rodrigo Goffredo

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/04/01/alfredo-del-penho-e-pedro-paulo-malta-formam-uma-dupla-do-telecoteco-na-cena-graciosa-do-show-bicudos-dois.ghtml


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